“Em vez de sentir tanta pena de si mesmo, escute", disse ela. (Ela sempre diz “escute”, porque ela pensa enquanto fala, realmente pensa.) Assim, disse: “Escute. Suponha que esse desmoronamento não tenha sido em você... suponha que seja um desmoronamento no Grand Canyon.”
“Foi em mim”, eu disse heroicamente.
“Escute! O mundo só existe nos seus olhos, na sua percepção de mundo. Você pode fazê-lo tão grande ou tão pequeno quanto quiser. E você está tentando ser um sujeitinho fraco. Céus, se eu desmoronasse, tentaria fazer com que o mundo caísse comigo. Escute! O mundo só existe da maneira como cada um de nós o apreende, de modo que é muito melhor dizer que não foi você quem desmoronou: foi o Grand Canyon”
“Já despejou todo o seu Spinoza?”
“Não sei nada sobre Spinoza. Sei...” Então ela falou de antigas fendas suas, que pareciam, pelo modo como as contava, muito mais dolorosas que as minhas, e de como elas enfrentara, superara e derrotara.
Senti uma certa reação ao que ela disse, mas sou um homem de pensamento lento, e o ocorreu-me simultaneamente que, de todas as forças naturais, a vitalidade é a mais incomunicável. Nos dias em que a seiva flui dentro de nós como um artigo que não foi escrito por obrigação, tentamos distribuí-la – mas sempre sem sucesso; para usar outra metáfora, a vitalidade nunca “pega”. Ou temos ou não temos, como saúde, olhos castanhos, honra ou uma voz de barítono. Poderia ter pedido um pouco da vitalidade dela, bem embrulhada e pronta para ser cozida e digerida, porém jamais teria conseguido – nem que mendigasse por mil horas com toda a minha auto-piedade. Só podia me afastar da porta da casa dela, portando-me com muito cuidado como louça de barro rachada, e ir embora para um mundo de amargura, onde estava formando um lar com materiais ali disponíveis, e citar para mim mesmo ao me afastar dali:
“vós sois o sal da terra. Mas se o sal perdeu o seu sabor, com que se há de salgar?”
“Foi em mim”, eu disse heroicamente.
“Escute! O mundo só existe nos seus olhos, na sua percepção de mundo. Você pode fazê-lo tão grande ou tão pequeno quanto quiser. E você está tentando ser um sujeitinho fraco. Céus, se eu desmoronasse, tentaria fazer com que o mundo caísse comigo. Escute! O mundo só existe da maneira como cada um de nós o apreende, de modo que é muito melhor dizer que não foi você quem desmoronou: foi o Grand Canyon”
“Já despejou todo o seu Spinoza?”
“Não sei nada sobre Spinoza. Sei...” Então ela falou de antigas fendas suas, que pareciam, pelo modo como as contava, muito mais dolorosas que as minhas, e de como elas enfrentara, superara e derrotara.
Senti uma certa reação ao que ela disse, mas sou um homem de pensamento lento, e o ocorreu-me simultaneamente que, de todas as forças naturais, a vitalidade é a mais incomunicável. Nos dias em que a seiva flui dentro de nós como um artigo que não foi escrito por obrigação, tentamos distribuí-la – mas sempre sem sucesso; para usar outra metáfora, a vitalidade nunca “pega”. Ou temos ou não temos, como saúde, olhos castanhos, honra ou uma voz de barítono. Poderia ter pedido um pouco da vitalidade dela, bem embrulhada e pronta para ser cozida e digerida, porém jamais teria conseguido – nem que mendigasse por mil horas com toda a minha auto-piedade. Só podia me afastar da porta da casa dela, portando-me com muito cuidado como louça de barro rachada, e ir embora para um mundo de amargura, onde estava formando um lar com materiais ali disponíveis, e citar para mim mesmo ao me afastar dali:
“vós sois o sal da terra. Mas se o sal perdeu o seu sabor, com que se há de salgar?”
F. Scott Fitzgerald
(imagem: esao andrews)
2 comentários:
sacré... você é g e n i a l. sentimento de gagueira de novo. mesmo.
Tudo oq ue eu li por influencia foi muito bom, esse texto não é diferente, alias, terminei seu livro... pela 2ª vez...
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