terça-feira, 14 de agosto de 2007

Don't you know your baby?

(às vezes não sei se sou real ou se sou um personagem de um dos meus romances...)


“Em vez de sentir tanta pena de si mesmo, escute", disse ela. (Ela sempre diz “escute”, porque ela pensa enquanto fala, realmente pensa.) Assim, disse: “Escute. Suponha que esse desmoronamento não tenha sido em você... suponha que seja um desmoronamento no Grand Canyon.”
“Foi em mim”, eu disse heroicamente.
“Escute! O mundo só existe nos seus olhos, na sua percepção de mundo. Você pode fazê-lo tão grande ou tão pequeno quanto quiser. E você está tentando ser um sujeitinho fraco. Céus, se eu desmoronasse, tentaria fazer com que o mundo caísse comigo. Escute! O mundo só existe da maneira como cada um de nós o apreende, de modo que é muito melhor dizer que não foi você quem desmoronou: foi o Grand Canyon”
“Já despejou todo o seu Spinoza?”
“Não sei nada sobre Spinoza. Sei...” Então ela falou de antigas fendas suas, que pareciam, pelo modo como as contava, muito mais dolorosas que as minhas, e de como elas enfrentara, superara e derrotara.
Senti uma certa reação ao que ela disse, mas sou um homem de pensamento lento, e o ocorreu-me simultaneamente que, de todas as forças naturais, a vitalidade é a mais incomunicável. Nos dias em que a seiva flui dentro de nós como um artigo que não foi escrito por obrigação, tentamos distribuí-la – mas sempre sem sucesso; para usar outra metáfora, a vitalidade nunca “pega”. Ou temos ou não temos, como saúde, olhos castanhos, honra ou uma voz de barítono. Poderia ter pedido um pouco da vitalidade dela, bem embrulhada e pronta para ser cozida e digerida, porém jamais teria conseguido – nem que mendigasse por mil horas com toda a minha auto-piedade. Só podia me afastar da porta da casa dela, portando-me com muito cuidado como louça de barro rachada, e ir embora para um mundo de amargura, onde estava formando um lar com materiais ali disponíveis, e citar para mim mesmo ao me afastar dali:
“vós sois o sal da terra. Mas se o sal perdeu o seu sabor, com que se há de salgar?”


F. Scott Fitzgerald
(imagem: esao andrews)

2 comentários:

Anônimo disse...

sacré... você é g e n i a l. sentimento de gagueira de novo. mesmo.

Anônimo disse...

Tudo oq ue eu li por influencia foi muito bom, esse texto não é diferente, alias, terminei seu livro... pela 2ª vez...